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A associação Vizinhos em Lisboa pediu recentemente um inventário completo e georreferenciado dos imóveis devolutos da Câmara Municipal.
No mesmo contexto, destacou um número que merece atenção: cerca de 71.990 habitações estarão fora do mercado habitacional permanente em Lisboa.
Mas é importante perceber de onde vem este número.
Segundo a associação, os Censos de 2021 identificaram 47.478 habitações vagas na cidade. A esse número foram somados 24.512 registos de Alojamento Local, chegando a uma estimativa de cerca de 71.990 habitações, equivalente a 22,5% do parque habitacional de Lisboa.
Isto não significa que existam 71.990 habitações simplesmente “fechadas” ou que todas pudessem entrar amanhã no mercado de venda ou arrendamento.
Mas mostra uma realidade importante: o número total de habitações existentes numa cidade não corresponde à oferta efetivamente disponível para habitação permanente.
Quando analisamos preços em Lisboa, não basta olhar para quantas habitações existem. É preciso perceber quantas estão realmente disponíveis, em que zonas, em que estado e para que utilização.
E essa diferença torna-se ainda mais relevante no segmento premium.
Um comprador que procura um determinado tipo de imóvel no Chiado, Príncipe Real, Estrela ou Avenida da Liberdade não está a escolher entre todo o parque habitacional de Lisboa.
Está a escolher dentro de um universo muito menor de propriedades que cumprem simultaneamente critérios de localização, área, qualidade, estado, vistas, estacionamento, arquitetura ou exclusividade.
É por isso que escassez e preço precisam de ser analisados ao nível do segmento, e não apenas através dos números gerais da cidade.
Os 71.990 habitações não provam que os preços do luxo vão continuar a subir.
Mas ajudam a ilustrar uma característica estrutural de Lisboa: a oferta habitacional efetivamente disponível é mais limitada do que o número total de imóveis existentes pode fazer parecer.
Em vez de dizer simplesmente ao cliente que “Lisboa está cara”, explica-lhe a oferta.
Quantos imóveis comparáveis existem realmente?
Quantos estão à venda?
Há quanto tempo?
A que preço fecharam as últimas transações?
E quantos cumprem verdadeiramente os critérios daquele comprador?
É essa análise que transforma um número de mercado em informação útil para uma decisão.
Depois de 37 anos no imobiliário e de ter formado mais de 7.200 profissionais, continuo a acreditar no mesmo princípio:
Um bom consultor não usa números para pressionar o cliente. Usa-os para lhe dar contexto.
E num mercado como Lisboa, compreender a diferença entre stock existente e oferta realmente disponível é essencial.