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As rendas caíram 2,4% em junho — o quinto mês consecutivo em queda. As transações recuaram 8,7% no início de 2026. E mesmo assim, o mercado residencial de luxo em Lisboa projecta entre 4% e 5,9% de valorização este ano. Alguém tem de explicar isto.
O Que os Números do Mercado Geral Estão a Dizer
Os dados publicados esta semana pelos principais portais imobiliários de referência merecem atenção: as rendas em Portugal estão em queda há cinco meses seguidos, chegando a junho com uma descida anual de 2,4%, para uma mediana de 16,3 euros por metro quadrado. O pico foi em outubro de 2025 — 17 euros. Desde então, recuo consistente.
Em paralelo, as transações de compra e venda caíram 8,7% no primeiro semestre face ao mesmo período do ano anterior. É o segundo trimestre consecutivo de recuo. Os preços gerais subiram 8,9% em junho — novo máximo histórico, pelo oitavo mês seguido — mas o ritmo está a abrandar, depois dos 10,2% de maio.
O mercado de massas está a calibrar-se. Famílias mais cautelosas, crédito mais exigente, e uma inflação que comprimiu poder de compra ao longo de três anos. Isto é um ciclo de normalização — não um colapso, mas um abrandamento real.
Por Que o Luxo Segue uma Lógica Diferente
O segmento premium em Lisboa não obedece às mesmas variáveis. Não porque seja imune à economia — mas porque é conduzido por uma base de compradores radicalmente diferente.
Cerca de 60% do capital investido no imobiliário residencial português veio do estrangeiro em 2025. Americanos, britânicos e brasileiros — compradores que não dependem da Euribor nem do poder de compra mediano português. Decidem com base em qualidade de vida, estabilidade política, e numa comparação simples: quanto custa o mesmo produto em Paris, em Madrid ou em Miami.
A resposta, quase sempre, é «muito mais». E por isso continuam a comprar.
Na Avenida da Liberdade, produto novo já vai a €12.000 por metro quadrado. Em Cascais e Estoril, a mediana do luxo está nos €5.591 por metro quadrado. Nessas geografias europeias de referência, esses números não chegam para a entrada do edifício.
A Escassez Que Ninguém Resolve
O outro lado da equação é a oferta — ou a falta dela. Portugal tem um défice estrutural de cerca de 14 mil habitações por ano. No segmento de luxo em Lisboa, esse défice é ainda mais agudo: não há produto suficiente que reúna área, localização, qualidade de construção e enquadramento legal limpo.
O licenciamento de novos empreendimentos cresceu 10% nos primeiros meses de 2025. Parece animador até olharmos para os prazos: um projecto licenciado hoje dificilmente entra em mercado antes de 2028. Enquanto isso, a procura acumula.
Esta não é uma situação de bolha. É uma situação de produto raro numa cidade que ficou mais cara para o mundo construir.
O Que Isto Muda para Quem Trabalha Neste Mercado
Trinta e cinco anos ensinam a distinguir dois tipos de abrandamento. O primeiro afecta toda a gente; o segundo só afecta quem não se posicionou correctamente.
O abrandamento actual é do mercado geral — produto corrente, famílias com capacidade de crédito limitada, zonas periféricas onde os preços pós-pandemia foram longe demais. Esse mercado está a normalizar.
O mercado de luxo em Lisboa não normalizou. Está a consolidar. São coisas diferentes.
Para o agente que trabalha o segmento premium, a mensagem é esta: o contexto mudou em volta, não dentro. Quem vende com produto qualificado, bem posicionado, para compradores certos — continua a fechar. Quem confundiu subida de maré com talento vai sentir a diferença agora.
O mercado nunca sobe em linha recta. Mas os melhores mercados também não afundam quando a maré baixa — flutuam noutra água.